terça-feira, 12 de maio de 2009

A vida ao acaso.

Era atípico.

Ele era atípico, suas atitudes eram atípicas, suas roupas eram atípicas. Assim como suas histórias.

Acordou como se tivesse levado um susto. Despertara de um daqueles sonhos que te fazem bem, mas ao mesmo tempo te deixam triste, pois não queria que ele acabasse.

Vestiu-se com um jeans velho e surrado, gasto pelo uso continuado, já com as formas de seu corpo. Não muito diferente era o tênis que colocou. Velho, sujo e confortável.

A camiseta era básica, sem estampas, frases ou cores chamativas. Branca. Assim como aquele sonho que acabara, mas não tinha acabado.

Não sabia se estava completamente desperto. Só sabia que não tinha sono. Não sabia que horas eram, tampouco lembrava o dia da semana. Sexta? Sábado? Quinta?

Pouco importava.

Bebeu um copo de café preto. O gosto amargo desceu arranhando seu corpo. Pudera, havia sobrado do dia anterior, e não tinha açúcar.

Aliás, açúcar não era preciso. Sua mente estava doce. Assim como seu sorriso.

Fechou seu apartamento. Desceu até sua garagem e abriu o carro.

Entrou com vagar, ainda pensando no que iria fazer.

Atípico.

Ligou o carro, conferiu o tanque de gasolina, miraculosamente cheio. Cheio como seu coração, repleto de esperança. Cheio como sua cabeça ficaria em instantes.

Não ligou o som. Não precisava de música naquele momento.

Manobrou o carro e rumou à estrada mais próxima.

Devia ser feriado. Não haviam outros carros na estrada. Ou seria a hora?

Algo dizia que era muito, mas muito cedo. A luz do sol estava baixa, conferindo àquela estrada uma sensação confortante.

Pensou: “É hoje. Vou guiar minha vida.”

Ligou seu Ipod no rádio do carro e deixou que aquele aparelho ditasse a trilha sonora. Não haveria motivos para selecionar este ou aquele artista, afinal, só tinha coisas que gostava. O acaso que levara sua vida até aquele momento levaria agora apenas sua trilha sonora. A outra trilha ele faria.

Com os vidros abertos, deixou que o vento fizesse com que aquele dia fosse único. Talvez o primeiro.

Foi dirigindo, apenas.

Por uma estrada que não sabia aonde o levaria, foi guiando seu carro. Sentia que estava guiando sua vida.

A estrada é como a vida. A vida não é um caminho?

Foi trilhando um novo caminho.

Sua vida nova começaria aonde seu combustível acabasse.

Talvez o acaso tivesse um papel importante em sua vida. Pararia em um lugar ao acaso, e lá viveria. O acaso que ele afastara acabaria trilhando seu caminho.

Longas horas passaram enquanto dirigia. Não sentiu nada que fizesse com que ele parasse de dirigir.

Conectou-se à estrada assim como com sua vida.

Durante a estrada lembrou sua infância. Os momentos de alegria com seus pais. As brincadeiras de criança. Sua adolescência, sua escola.

Lembrou de todas as mulheres que teve, as que deixou de ter, as lições aprendidas com cada uma.

Lembrou de seus empregos, suas viagens e os filmes que viu.

Chorou cada vez que lembrava de seus heróis e as lições que havia aprendido. Chorou com os amigos que se foram e com as derrotas que teve.

Logo voltava a sorrir, já que cada derrota lhe proporcionou um aprendizado.

A estrada, o vento no rosto, o sol dando algumas dicas que muito tempo havia passado fizeram com que ele chegasse a uma conclusão: “Nasci de novo.”

Nascera um novo homem. Atípico.

A gasolina acabou e o sol baixou. Chegara em um lugar muito longe daquele que havia sido sua casa.

Juntou os trocados que tinha na carteira, procurou um hotel.

Não perguntou onde estava, que dia era ou que horas. Apenas pediu um quarto.

Tomou um banho quente e demorado. Bebeu um copo de água gelada e foi dormir.

4 comentários:

Beto disse...

Isso não chama-se depressão?

Peter disse...

Chamem do que quiserem.

Acho que no caso do personagem foi apenas acaso.

Uma mera tentativa de começar de novo, eis que sempre é possível.

Pode ser por depressão? Pode ser por felicidade? Cabe a quem quiser mudar responder.

Ele foi por acaso.

Teuso disse...

Nada é por acaso! Tudo tem um motivo...
Bem escrito Peter!
É Pedrinho a vida muda... mas não por acaso!

Peter disse...

Qual o motivo de tudo ter um motivo?

Será que ter um motivo não é algo ao acaso?

Como esclarecer qual foi o motivo de tudo ter um motivo???

Será que o acaso não pode ser um motivo??

É meus amigos... é copa do mundo...

 
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