domingo, 28 de fevereiro de 2010

Pessoas em série

E no meio de uma conversa surge o tema: pessoas feitas em série.

Fato. Muito já refleti e escrevi sobre o que considero as mazelas da sociedade atual: falta de motivação, poucas virtudes, falta de empatia, pensamentos supérfluos, pouco posicionamento...

Enfim, falta muita coisa. Mas "o que é que falta"?

Faltam diferenças.

Para entender o que eu quero dizer, proponho uma experiência sensorial: vá até um shopping no meio de uma tarde de sábado ou domingo. Sente-se em um dos bancos que ficam nos corredores e fique algumas horas observando as pessoas que passam. Tente identificar padrões de conduta, como roupas, modos, conversas ou objetivos.

Se o shopping não for uma boa escolha, vá até uma festa, sente-se no balcão do bar, peça uma cerveja (ou o que mais lhe agradar) e observe homens e mulheres. Observe seus interesses, conversas, estilos...

Não está satisfeito? Vá para a academia. Vá para um show. Um teatro. Cinema. O centro de sua cidade. Supermercado...

Se a experiência foi bem realizada, você terá observado que cada vez mais as pessoas estão parecidas umas com as outras.

O sentimento de déjà-vu será unanimidade: "será que já não vi esta pessoa antes?" ou "tenho a impressão de que todos são iguais...".

Não estou aqui propondo uma discussão sobre os fatores que levam ao resultado (o que deixam as pessoas iguais), e sim propondo uma alteração na percepção da sociedade.

Fato é que cada vez mais tenho a sensação de o mundo está convergindo para um ponto de estagnação, onde cada pessoa é igual àquela que está ao seu lado. Sem diferenças.

Um mundo meio Aldous Huxley, em seu "Admirável Mundo Novo" (aliás, livro cuja leitura é altamente recomendável - compre aqui), onde as pessoas não questionam seu papel na sociedade, e são feitas em série, lembrando o velho modelo Ford de produção (viva Chaplin!).

As mulheres usam as mesmas maquiagens, os mesmos modelos, e vão para a mesma clínica estática. Os homens tomam os mesmos remédios, ficando todos do mesmo tamanho, com as mesmas roupas, participando dos mesmos grupos.

Os interesses são os mesmos, e não há espaço para qualquer coisa diferente.

O engraçado é que estas mesmas pessoas (que, se levarmos ao pé da letra, são uma só) reclamam: "ui, falta novidade!!!".

Quando olho para o lado, a imagem que vejo é mais ou menos a seguinte:

Parece que há um mundo de pessoas copiadas, sem atrativo algum, que apenas cumprem o papel de fazer alguma coisa, enquanto suas vidas passam desapercebidas.

Viver é uma ciência complexa. É saber lidar com adversidades, com as inúmeras diferenças que existem entre nós.

Olhe novamente a imagem.

As pessoas apenas parecem iguais. Elas não são...

Cada um deles é diferente, e possui uma característica única, que o diferencia dos demais.

Se eles sabem disso? Não sei. Gostaria que soubessem.

Se as pessoas tomassem consciência de como é importante saber lidar com as diferenças, perceberiam que o mundo tem muito mais para nos oferecer. Muito mais poderia ser criado. Muita riqueza seria dividida (afinal, cultura é riqueza).

Se o mundo todo está andando para trás, sem questionar o motivo, ande para a frente. Se todos usarem preto, use branco. Se todos murmurarem, grite.

Faça a diferença. Exerca sua diferença.

Vale ouvir o refrão da música do Stereophonics:

"But it only takes one tree, 
to make a thousand matches
It only takes one match, 
to burn a thousand trees"

Você prefere ser a árvore que gera mil fósforos, ou o único fósforo que queima mil árvores?

Eu prefiro ser a diferença que me faz uma pessoa única e especial.

Abraços.


Obs. 1: Sugiram temas. Este tema veio de uma conversa e rendeu uma boa reflexão. ;)

Obs. 2: PES 2010 usando músicas de 1997??? Viva o bom e velho Rock'n'Roll.

Obs. 3: Se alguém fizer o experimento que proponho, deixe seu comentário. É bom ouvir os leitores.

7 comentários:

Claudia disse...

Primeiro parabéns pela indicação de leitura do Admirável mundo novo.
Mas acredito que se você fizer o que propõe aos outros para assimilarem sua conclusão pode perceber que está enganado.
Pode perceber que esta com um olhar apático sobre as pessoas, e descrente das mesmas.
Olhe em volta quando estiver no shopping. Sim somos todos diferentes, sofremos muitas influencias culturais para parecermos todos iguais, principalmente a geração que passou por repressão e militarismo.
Sente-se no shopping veja os Emos e qual será sua fala quanto à existência dos mesmos no local? E ao ver um casal Gay qual será sua reação? É bom cultuar as diferenças na critica, mas qual é a sua pratica?
Não somente pelo proliferado preconceito, mas por desrespeito e agressões as diferenças não se mostram, não saem às ruas, as pessoas não se assumem, não tem vontade e nem vêem vantagem de ser diferente.

Teuso disse...

Beirando o profissionalismo! Dale pagobem!

Beto disse...

Beirando? literalmente mar adentro...

Grande peter

Peter disse...

Claudia: não estou bem certo se não houve um pequeno desvio de interpretação.

A proposta é fazer uma análise um pouco "irônica" sobre as diferenças.

Fato é que percebo o mundo que me cerca com poucas diferenças (veja bem, POUCAS e não nenhuma.

Não acho que seja uma visão apática sobre as pessoas, ou descrente.

Acredito muito nas pessoas (quem me conhece sabe disso) e jamais olhei o mundo com apatia.

Sofremos influências culturais sim, a todo o momento. Discordo que seja para parecermos todos iguais.

As influências culturais servem para entretenimento, para cultura. Não para modelar.

O que leva as pessoas a serem iguais umas as outras eu não sei. Falta de ambição? Medo (um dia escrevo isso)?

Cultuo as diferenças, e dou graças a Deus que elas existem e pratico isso.

Não conseguiria viver em um mundo "huxleyiano".

Não acho que repressão e militarismo sejam desculpas para "ficarem no armário".

Isso já passou. E qualquer espécie de preconceito que ainda exista é temporário (leia o blog e os comentários e verá que uma idéia de impermanência ronda o ambiente), se ainda não passou, um dia irá passar.

Concordo contigo que as pessoas não se assumem, mas não acho que seja por desrespeito/agressão/preconceito, e sim por falta de preparo. E é justamente por isso que proponho que sejamos a nossa diferença.

De quem é o ditado que diz: "seja aquilo que você quer que os outros sejam"???

Seja sua diferença, e verá a diferença dos outros com outros olhos. Simples assim.

Peter disse...

Beto e Teuso: é o novo estilo literário!

Anônimo disse...

Boa dia! Sou Beatriz, moro em Goiânia - GO. Passei os últimos 4 anos em Barcelona e roletando pela europa. No fundo, acredito em conspiração do sistema. Acredito que a ordem, superestrutura, status quo ou qq conceito que se queira atribuir ao inconciente coletivo, está cada vez mais se padronizando. Não é intesão da minoria que detem o poder estabelecer um pensamento crítico, embora cada vez mais, idéias, teorias, pensamentos e maneiras invoadoras ou únicas de expressão venham surgindo. Me parece que as iniciativas independentes sempre têm menor crédito, visibilidade ou até mesmo aceitação no coletivo. Concordo com o que disseram acima " Não somente pelo proliferado preconceito, mas por desrespeito e agressões as diferenças não se mostram, não saem às ruas, as pessoas não se assumem, não tem vontade e nem vêem vantagem de ser diferente. "
É mais cômodo se passar por igual, e guadar a diferença que caracteriza um novo ser, somente para quem realmente importa, mas porque não nos importamos todos para todos??
Porque não conseguimos nos unir na diferença??

De qualquer maneira eu sempre me sinto bastante alien onde quer que esteja, e ainda não sei o que fazer com tanta revolta! Um abraço do cerrado pra vocês :)

biadelarco@gmail.com

Peter disse...

Bia, seja bemvinda ao Pago Bem!

Sabe que gostei de sua reflexão?

"Porque não conseguimos nos unir na diferença?"

Abre espaço para uma série de indagações. Quiça outro post.

Concordo contigo, também, quando diz que é "mais cômodo se passar por igual".

Tenho pensado muito sobre isso, sobre a escala de valor das iniciativas, e se o que é independente tem/ou parece ter valor menor.

Faço uma analogia com que ouvi de um professor, ao discutir em sala de aula a questão financeira de uma negociação: "o ser humano tende a escolher pelo preço, quando não tem informações suficiente sobre aquilo que está comprando. Em outras palavras: é mais caro, então é melhor."

Acho que isso pode explicar um pouco a separação das diferenças. Somos seres sensoriais, que vivem uma experiência.

A sua experiência é diferente da minha, mas o mundo que se apresenta é o mesmo (numa visão um pouco simplista).

Muito embora seja o mesmo, eu e tu percebemos as coisas de maneira diferente, pois nossas realidades são diferentes.

Assim como as diferenças.

Elas não se unem pois as tuas diferenças são fundamentadas com base na tua realidade, e não na dos outros. E assim com as diferenças dos outros.

Moral da história: nunca sabemos o que leva uma diferença a ser uma diferença. E voltamos pro exemplo da negociação: "não temos as informações, e escolhemos pelo mais caro"

É um pouco de filosofia de bar, mas é assim que consigo tentar uma racionalização sobre isso. Meu medo é que não vejo solução às diferenças não se unirem.

Aliás, e se elas fossem unidas, sendo o status quo? O mundo seria melhor ou estaria melhor?

É o mal da sociedade: estar em constante evolução. Na verdade é o bem da sociedade.

Enrolei mas não disse o que queria dizer: o comodismo é o ópio da sociedade. Temos medo de sair da zona de conforto, para exercermos nossas diferenças. Eu já fiz isso. E continuo fazendo. Já fizeste?

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