sábado, 8 de maio de 2010

Sobre a criminalização desumana da pedofilia

“Eu quero tratamento”, disse o mais novo vilão do Brasil, agora já morto. Vilão, pelo menos segundo a mídia burra que tem como expoente jornalístico a Bandeirantes, mais especificamente o programa apresentado pelo Datena. Tal rotulação expressa o pensamento de uma parcela significativa da população brasileira que defende que pedófilos – tomando um exemplo mais agudo de criminosos em geral – devem ser tirados de circulação, de preferência mortos, mas pelo menos encarcerados o resto da vida; quando, subentenda-se, viverão provavelmente pouco tempo na mão dos outros prisioneiros que compartilham a forma de pensar da referida parte da população. Só assim a justiça será feita. Ainda segundo essa opinião mais geral, pedófilos seriam mentalmente imundos e perversos, voluntariamente malvados, isto é, vilões. Há projetos de lei bolados por políticos atuais que compartilham essa opinião e pretendem mapear todos pedófilos do Brasil, para que toda população saiba onde (não) encontrá-los. É como fazer uma queimadura na testa para identificá-los, mas na era digital. Se vivêssemos numa sociedade altamente moralista (vide o filme A Fita Branca) aposto que os homens célebres não gostariam de ter suas testas queimadas caso seus adultérios, sonegação de impostos e etc viessem à público...

Para pegar como exemplo alguns diagnósticos da moda, mas que não fazem nada além de dar novo nome pro que já existe desde sempre, imaginem se hiperativos ou depressivos não fossem considerados doentes, mas voluntariamente, intencionalmente preguiçosos ou maníacos? Imaginem alguém que se sente muito mal pela manhã e não quer trabalhar, numa situação de forte tristeza, ser considerado malandro, trapaceiro e embusteiro, ao invés de deprimido? Pois é o que acontece com a pedofilia. Continuemos imaginando. Um homem homossexual, que em determinadas épocas e culturas é considerado um depravado desviado da moral correta, hoje em dia é, em parte, compreendido como alguém que sente, verdadeira e espontaneamente, atração pelo mesmo sexo. Pois o pedófilo – assim como o fetichista que só se excita vendo pés, por exemplo –, sente por uma criança a mesma atração genuína que um homem heterossexual sente por uma mulher. É fundamental nos darmos conta disso para compreender o impacto social do impasse do desejo sexual do pedófilo – ele se sente naturalmente atraído por crianças. As diferentes constituições humanas permitem distintos objetos privilegiados na sexualidade, alguns deles são socialmente aceitos no âmbito moral e legal, outros não. Lembremos, como exemplo legal, que em alguns estados dos EUA a sodomia é ilícita. Como exemplo moral temos as diversas práticas que o catolicismo medieval insiste em condenar diretamente do topo de castelos dourados de hipocrisia...

A pedofilia é uma questão mais complicada porque sua criminalização e sua perseguição moral encurralam seus, digamos, padecentes sem que nenhum espaço de relativização seja possível. Os pedófilos não podem se reunir em grupos de anônimos como o AA para compartilhar problemas e buscar ajuda, pois, ora, a polícia prenderia todos diretamente na sede. Mesmo o sigilo dos consultórios de psicologia é posto à prova: o código de ética prevê possível quebra de sigilo em determinadas situações relativas. Poucos pedófilos buscam tratamento, uma vez que temem, com razão, que o sigilo seja quebrado. Quantos profissionais não abririam mão do sigilo para prender um pedófilo que anuncia que cometerá ou comenta que cometeu abusos? Se nem os profissionais que deveriam estar habilitados para tratar esses quadros são capazes de escutar os pedófilos, quem o fará?

Chegou-se a considerar que negros não eram pessoas de verdade, pois não teriam alma. Chegou-se a pensar que judeus devem todos morrer e que a execução de doentes congênitos é válida para a construção de uma raça superior. Se a mídia, a legislação e a população em geral, não começarem a compreender a pedofilia como um crime cuja causa não é um desvio de caráter, mas uma característica intrínseca e genuinamente humana, o ódio que não compreendemos resultará na mais longa caça às bruxas que já se viu. Quanto mais acuados e menos compreendidos forem os pedófilos, menos possibilidades de tratamento terão e, claro, mais crimes cometerão. Para cuidar das crianças e impedir que sejam abusadas devemos, paradoxalmente, começar tratando seus abusadores com alguma humanidade.

Pago pelo leitor: Vitor Hugo Triska, psicólogo, também escreve em vhtriskaensaios.blogspot.com.

4 comentários:

Peter disse...

Excelente texto.
Sendo sincero, nunca havia pensado sob essa ótica.

E acho que a proposta é válida não apenas para pedófilos, mas para quaisquer outras atitudes com que nos depararmos.

O que leva àquela conduta?

Antes de julgar, estabelecer um padrão analítico estudando os motivos, evitando jogar pessoas que precisam de ajuda na vala comum das pessoas "sem cura".

Denso.

Beto disse...

Bah . mto bom o tópico, porém muito difícil comentar sem pender para um dos lados, seja ele para o lado da jutiça atual, seja ele para o cenário que o autor propaga.

Do ponto de vista de que ainda há muito preconceito e que variáveis de personalidade ainda são pouco exploradas quanto à sua correlação com o crime, vou junto com o autor e embarco nessa idéia. Seria muito interessante um aprofundamento no estudo desses "malfeitores"

Abs

Matheo disse...

Ousado! Tenso!
Belo texto Vitor. Até fui olhar o teu blog, mas é demais para a minha "capacidade cognitiva"!
(Melhor nem tentar falar como o Vítor...)

Abraços :-)

Peter disse...

Concordei com o Matheo... hehehe como tá tche?

 
Copyright 2010 pago bem!