quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Gerações

Música: Walk On
Artista: U2

Da última vez que sentei para conversar com meu avô, fiquei abismada pela quantidade de nomes, fatos, datas e histórias que ele lembrava. Com informações precisas e detalhadas.

Histórias de família.

Ele sabia coisas como quem foi seu bisavô e onde morava.

A árvore que estava plantada nos fundos do pátio de casa quando era criança.

O nome do entregador de leite e quantos litros comprava por semana.

As características do seu primeiro carro.

A data e detalhes de como conheceu minha avó. Como ela estava vestida e o que ela gostava de comer.

Também lembrava os trabalhos de marcenaria que seu pai fazia, o que anos depois também virou um de seus hobbies.

Voltei pra casa dirigindo rápido pois já estava atrasada para alguma coisa. Comi o que estava mais à mão na geladeira e saí correndo para mais um dia de trabalho.

Ao final do dia comecei a lembrar da conversa e tentei também lembrar das coisas que havia feito durante o dia. Não lembrava o que havia comido, ou o que meus colegas estavam vestindo. Mas ao mesmo tempo tive a sensação de que havia feito tantas coisas...

Difícil conclusão que não vivi meu dia.

Que estava e sempre estou no piloto automático.

Que não sei quantos litros de leite se gastam por semana na minha casa. Até porque as opções de marcas, tamanhos, cores, vitaminas são tantas que nem sei mais se aquilo é leite.

Outra coisa que me impressiona.

Meu avô, e as pessoas mais velhas em geral tem uma consciência histórica e política imensa. Eles narram fatos com referencial histórico.

Fulano nasceu logo depois que Jango assumiu a presidência.

Às vezes penso se essa é uma consciência que temos depois que os anos passam.

A pergunta que não quer calar... Do que eu vou me lembrar quando tiver a idade dele?

Será que vou saber as datas tão precisamente? Será que vou lembrar da árvore que havia no meu pátio? Será que estamos fadados a viver num mundo onde tudo acontece tão rápido que pagaremos por isso ao não ter o que contar aos nossos netos? Qual minha consciência política e histórica?

O famoso “Generation gap” tem um significado maior para mim.

Não é só um choque de crenças e comportamento, mas sim um espaço. Um espaço em branco. Que só cabe a mim escrever.

Por que não deixar de lado o choque de gerações e aproveitar a experiência, o conhecimento, a calma e a percepção de quem já passou pelos mesmos conflitos, mas com muito mais consciência do que se passava ao redor. Olhar ao redor. Lembrar. Como diz a música, tudo que não se pode deixar para trás...

Pago bem pela sua história...

6 comentários:

Ed disse...

Amei o texto!! Gozado que na segunda ou terça(olha já a falta de memória, rs), pensei a mesma coisa!!! Como vivemos num mundo "miojo", onde tudo é para ontem!! E além de ser para ontem, tudo é o máximo e ao mesmo tempo o mínimo!!! Criamos amigos, amores, situações, roupas, como a quem cria personagens em histórias de quadrinhos. Por isso, que ao final do dia, não lembramos de nada!!

Ed disse...

Afinal, tudo é especial, tudo é maravilhoso e único.... Até o dia de amanhã, onde tudo se repete e acabamos no vazio do esquecimento!! Cabe a reflexão, o mundo pode estar acelerado... Mas a forma que "processamos" a nossa vida, e em especial sentimentos, devem ser feitos com mais calma!! Se não, ao final da vida... Olharemos para a enfermeira e acharemos que mais uma vez, é o amor das nossas vidas

Luize disse...

Wow... muito legal o texto!!!!
Acho que quando a Marta Medeiros tirar férias vc pode escrever na ZH, hehehehehehe...
Bastante profundo ... o negócio é sair do piloto automático e prestar atenção nos detalhes da vida.

Peter disse...

Mais uma vez o tema batido já no Pago Bem: o sentimento de presente.

Tche, o budismo ensina, o espiritismo, o cristianismo e todos os ismos... nossa consciência diz...

agora, pq é tão difícil colocar isso em prática?

Beto disse...

Como comentado, o mundo eh praticamente um cup noodles... totalmente instantâneo, e mais, volátil. Tudo pra ontem, aonde as lembranças, quando não fixadas, evaporam facilmente. O ponto de equilíbrio de saber aproveitar tudo é a satisfação que temos em tudo que fazemos... Se fazemos com paixão, se unimos o útil ao agradável, certamente fluiremos menos no piloto automático, assim as memórias ficarão bem mais evidentes. O sucesso é saber chegar nesse ponto de equilíbrio, sobram variáveis que nos distanciam dele.

Peter disse...

Esse é o lindo em se viver!!!

 
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