quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Ação e reação

Trilha sonora para uma crônica sobre como há mais para o menos:

Cleaning my gun - Chris Cornell

Assim como há dia para a noite, sol para a lua e calor para o frio. Velho para o novo.

Assim como há doce para o salgado, comida para a fome e água para a sede.

Carinho para a tristeza. Guerra para a paz. Sorriso para a lágrima e inverno para o verão.

Alto para baixo. Homem para mulher.

Música para o silêncio.

Liberdade para a prisão. Resposta para a dúvida.

Tempo para o tempo.

Assim como há curvas nas estradas, há obstáculos no caminho.

Foi em um destes obstáculos que o contraponto da confiança, da calma, da admiração e do carinho passou de uma posição passiva para uma posição ativa.

Algo como apagar a luz: um coração iluminado viu-se no escuro.

E, seres complexos que são, eles não conseguiam mais dialogar. Aquele diálogo que era feito com palavras, com olhares, com gestos e com energia passou a ficar desorientado.

Ficou perdido.

Ficou sem referências.

Um mundo onde as coisas eram certas e calmas deu lugar a outro mundo onde o incerto reinava e a tensão transbordava.

E foi assim, transbordando, que eles tentavam se encontrar.

Como dois corpos que dependem da correnteza, eram duas pessoas em meio a uma guerra. As palavras que antes eram de carinho, causavam dor. O brilho no olhar ficou opaco. O respeito ficou como a energia, perdido.

As construções sólidas que fizeram foram substituídas por experiências vazias.

E o que antes curava, agora machucava.

E como toda ação tem uma reação, todo tempo tem um tempo, e aí a conclusão é lógica:

Um tempo ruim tem um tempo bom. E um tempo bom deixa a poeira baixar. A poeira baixa deixa o sol entrar. O sol entrando deixa a visão mais clara. A visão mais clara deixa o horizonte definido.

Assim como o certo para o incerto e o aberto para o fechado, o mundo ideal, verdadeiro e reconfortante sempre esteve ali. Era justamente a escuridão que impedia que eles enxergassem. Os gritos que impediam que ouvissem. A tensão que impedia que sentissem.

E o tempo deixa a luz, aos poucos, mostrar que aquela estrada para a evolução sempre esteve ali.



E que caminhar por esta estrada é só uma questão de opção.

E de tempo.

sábado, 15 de outubro de 2011

Da simbiose, do infinito ou do ciclo interminável

Redonda, como a lua que insiste em penetrar pela janela, que clama por uma persiana. A persiana seria ideal para tapar aqueles raios de um sol, que vem aos poucos, desbravando as fronteiras de um quarto vazio, iluminando os resquícios de uma noite cheia (de sentimentos). Sol Redondo, que insiste em dizer para eles que mais uma dia os espera.

Redondamente circular, como aquela sensação clichê: aquilo que não tem explicações, explicado está.

A lua - imponente, impotente e redonda - é testemunha dos crimes que ele comete. Mais comparsa ainda, também é testemunha dos crimes que ela comete. É onipresente nos devaneios de cada um dos dois, sem que ele saiba o que se passa com ela, e ela com ele. A lua, redondamente impotente, tampouco.

Crime. Violação de alguma regra. Mas qual?

A lei natural, que diz que nascemos sozinhos, vivemos sozinhos, morremos sozinhos. Que somos únicos e que nossa natureza é lutar pela independência. Que aprendemos com nossas experiências.

Sós por vários momentos, mas juntos quando juntos. A perfeita expressão do "eu mais você é igual a nós". Não aquele ele 'nós' da primeira pessoa do plural, mas o o 'nós' que é o plural de nó, de enlaçamento, que entrosamento. De simbiose. Assim como dois círculos que, lado a lado, formam um infinito.

Dilaçeram, destroçam, usurpam e violam as leis naturais da solidão e da independência.

Quando juntos criam tratados capazes de ganhar o Prêmio Nobel: explicam o inexplicável, que explicado estava, de uma maneira simples, com nós. 

Aquele da primeira pessoal do plural. Aquele que, quando juntos, significa um infinito de questionamentos, experimentos, sensações e paradoxos. Os minutos que viram horas, as luas que viram sóis, as músicas que viram silêncio, o vazio que vira cheio e o desequilíbrio equilibrado.

Milhares de nós, aqueles do entrosamento, resultantes de uma simbiose especial.

Quem disse que ele não aprende com as experiências dela? Quem disse que ela está sozinha quando ele está longe? Quem disse que existe algo chamado solidão?

A energia que flui em cada toque, a maneira como os corpos se encaixam e a sensação de que em um abraço cabe um universo.

São extremamente felizes quando estão cometendo o crime de desafiar as leis naturais que dizem: deixem a coisa acontecer. Eles deixam a coisa acontecer. Eles fazem a coisa acontecer. E a lua, redonda, vira aquela lua crescente, que mais parece um sorriso.

E o raio do sol, redondo, dança, imponente, impotente, para iluminar aquele dia que está para começar.


E aquele dia iluminado pelo sol virará noite. E o ciclo de aprendizado, evolução e iluminação começará novamente.

Infinitamente.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Ensaio sobre a cegueira

Para ser lido ouvindo a trilha sonora da cegueira:

 
Pink Floyd - Lost for Words

Somos cegos.


Além de sermos cegos, somos ignorantes. Nossa cegueira nos deixa limitados.

Na verdade não somos cegos completos, e sim cegos funcionais. O pior tipo.

Cego funcional é aquele que enxerga, mas enxerga uma visão limitada. É aquele cego que não enxerga por opção.

Todos nós somos cegos funcionais.

Enxergamos o mundo da nossa maneira, da maneira como o mundo se apresenta para nós. Única e exclusivamente

Somos escravos de uma limitação que impede com que enxergamos o mundo com tudo que ele nos oferece. Sabemos disso e continuamos a enxergar apenas a nossa realidade.

Fracassamos constantemente, já que não enxergamos com os olhos do outro, daquele que está em nosso lado.

Quando enxergamos o mundo apenas com nossos olhos, deixamos de enxergar o mundo com os olhos dos outros, e perdemos a chance de expandir aquilo que é realidade apenas para nós para aquilo que é realidade também para os outros.

Tornamo-nos mestres apenas de uma única coisa: nosso mundo. Somos tudo que precisamos para apenas uma coisa: enxergar apenas o nosso mundo.

Somos ignorantes pois desconhecemos os outros mundos que existem.

Cada pessoa enxerga o mundo com os seus olhos. Cada pessoa possui a sua realidade.

E se experimentássemos enxergar o mundo com os olhos dos outros?

E se exterminássemos nossa cegueira funcional, enxergando o mundo com os nossos olhos, os seus olhos, os olhos daquele que está ao seu lado, do seu parceiro ou parceira, dos seus parentes, amigos, vizinhos ou com os olhos daquele estranho que acabou de atravessar a rua?

Deixaríamos nossa ignorância egoísta de lado, e conheceríamos a realidade de cada pessoa com que nos relacionamos (ou ainda aquelas que ainda não nos relacionamos)

Enxergamos o mundo com os nossos olhos e todos os demais olhos existentes, e seremos livres. Seremos capazes de viver a vida de forma plena, curtindo todas as infinitas nuances existentes, capazes de trazer a felicidade da forma mais simples, e ao mesmo tempo mais complexa.

Como já disse Lynyrd Skynrd: "se eu partir amanhã, você ainda irá lembrar de mim?"

Aquilo que olhos treinados e abertos veem, seu dono nunca esquece...

E aquilo que não é eterno, eterno será.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Carta para o jovem eu

Já fiz um exercício parecido: escrevi uma carta para mim mesmo, dizendo onde queria estar daqui a um ano.

Passado o ano, recebi a carta e percebi como a vida flui.

Isso só é percebido depois que o tempo passa: no futuro, quando o tempo já passou.

Hoje vou escrever uma carta no futuro. 

Vou escrever uma carta de alguém que já aprendeu a perceber como o tempo e a vida passam, e deixar essa percepção para alguém que ainda terá a oportunidade de vivenciar o tempo. 

Como se eu deixasse a carta para que eu mesmo pudesse ler em meu passado.

Carta para o jovem eu:

"Caríssimo, bom dia.

É exatamente assim que os dias devem ser: bons.

Pouco importa se estiver chovendo ou se estiver sol na rua. Acorde e diga que o dia será bom. Aos poucos você vai aprender que bons dias são excelentes. E que dias excelentes são maravilhosos. E que dias maravilhosos são inesquecíveis.

Em um dia inesquecível eu ouvi que o tempo é senhor da razão.

E é.

Entendo a ansiedade de querer tudo o quanto antes. Entendo a falta de paciência. Entendo que queiras tudo para ontem. Entendo todas as dúvidas que te assolam. Entendo tudo isso. Sabe como eu entendo?

Eu já vivi isso e posso te contar o que aprendi.

Aprendi que a ansiedade e a pressa tapam nossa visão do hoje. Aprendi que ficava cansado apenas por esperar. E cansado meu corpo não percebia que o que eu queria sempre estava logo ali, do meu lado, na minha frente, dentro de mim.

Viva o hoje e as coisas que desejas chegarão sempre mais rápido. Verás que o tempo estará do teu lado. E terás tempo para fazer o que queres.

Aprenda a agir com a razão.

Aprenda a agir com o coração.

Aprenda que o segredo não é o equilíbrio entre a razão e a emoção, e sim saber em que momentos deves agir com razão ou com o coração.

Seja duro. Somente quando for preciso.

Seja forte com sua moral, seus valores, suas ideias e sonhos. Seja dedicado, que é assim que se constroem os sonhos.

Teus erros o tornarão sábio e cada vez mais preparado. Agora, por mais preparado que estejas, errar sempre será uma possibilidade e por isso deves saber lidar com teus erros. 

Errar significa aprender, e aprender significa sabedoria. Se ficares sendo duro contigo jamais perceberá que erraste, e perderás uma bela oportunidade.

Errar é ter a chance mais linda que um homem pode ter: a de aprender e ter algo para ensinar.

Seja leve contigo mesmo. Tente. O que tens a perder?

Relaxe.

Sabemos muita coisa e depois aprendemos que nada sabemos.

A vida é uma estrada com infinitos caminhos. Todos saberão ser difíceis, e cabe a gente escolher aproveitar a beleza e a felicidade existentes em cada um deles.

Por isso, meu caro, aprenda apenas estas duas lições: evolução é uma constante e as respostas para todas tuas dúvidas estão por aí, ao doce sabor do vento.

Acabando, sem acabar: jamais te esqueça de que és uma pessoa só, jamais só.

Por isso, aprenda o que significa humildade. Saiba aprender contigo e, mais importante, com todos os outros. Agradeça todo aprendizado e ensine. Sempre.

Torna-te um multiplicador: aprenda a aprender, aprenda a ensinar. Ensine.

Desejo-te todo um infinito de oportunidades, para que possas a aprender o que fazer com elas.

Eternamente,

Tua alma professora/aprendiz"

Observação: 
A ideia surgiu de algumas conversas sobre a beleza da vida, em 2009. Parada por todo este tempo, amadureceu e foi concluída após uma celebração de aniversário da maneira mais completa que um homem pode desejar: com admiração pelas pessoas que tu admira. Obrigado.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Entre o medo e o nada...

Entre o medo e o nada, o que você prefere? 

Foi com um eco desses que percebi que prefiro a dor. A dor, que ao mesmo tempo "dói", ensina, empurra para frente, traz algo, sobretudo, de bom. 

Seria muito confortável sentir nada, mas e aí? Onde me sinto desafiado? Posso dizer que vivo esse momento sem desafios... Me sinto um "nada". O dia, com 50 horas, passa a ser meu maior desafio, o de vencer o tédio. Mas o que isso tem a ver? Tudo! Há algum tempo não sinto o medo, o frio na barriga... aquela sensação de tentar segurar em alguém antes de dar o próximo passo.

Falando bem a verdade? Aquela velha sensação da conquista.

Embora haja duas vertentes para esse medo, o de ser repelido e o de ser aceito, é uma sensação desafiadora.

O medo

De quê? De sentir medo? Não faz sentido. 

Nascemos prontos para o crescimento, e não há crescimento sem dor. Anéis se vão, amores vem, e o que resta? O medo de tudo ocorrer de novo. Entender o medo, educar o receio é a melhor arma de estar preparado para esse jogo onde todo mundo perde, cedo ou tarde. Uns mais, outros menos, mas perdem.

O nada
 
Eu poderia desenvolver um parágrafo escrevendo nada. Nada melhor traduziria o sentimento do "nada". 


Um xingamento, um comparativo baixo... nada adiantaria se é "nada". E isso traduz-se ao substantivo. Sentir nada é passar batido pela vida, sem amores, sem anéis. Não amar alguém sobrepõe-se a amar o nada, pois quem ama um dia terá ou tem o medo. Amar o nada ou ninguém, nada se tem, nada se sente, é um jogo de ilusão, o vácuo literal. 

É o abismo humano em sua falta de perspectiva de crescimento. 

E quem não espera crescer? Como pessoa? Como homem/mulher? Parar no tempo não dói, muito pelo contrário... é confortável demais. Tão confortável quanto teu sofá. E pasme (embora tu saibas disso), ficar sentado nele não te agrega em nada. 

O projeto
 
Faça algo de novo, pule de asa delta/de base jump/da sacada até a piscina. 

Sinta o frio na barriga/conheça uma nova montanha russa/faça uma declaração de amor ao vivo. 

Recomece algo do zero com os olhos vendados/desvie o trajeto/conquiste algo novo. 

Escreva uma poesia e declame para alguém/mude de emprego/comece um curso mais difícil mas sinta medo, medo suficiente para poder olhar para trás e ver que foi muito melhor que ter feito simplesmente "nada". 

Essa foi uma singela reflexão acerca de uma das centenas frases de Carlos Drummond de Andrade, no dia do aniversário de sua perda. 

E você, vai fazer nada? Tenha medo de comentar, mas comente esse post!

Fatos


Do cheiro a lembrança.
Do olhar a esperança.
Do abraço a segurança.
E para o inesperado ele se lança.

Do carinho o calafrio.
Do beijo o arrepio.
Da ausência o vazio.
E seu coração ele abriu.

E que bela mudança.

Daquele outro surgiu.

De tudo a beleza.
Do dançar a leveza.
Do jeito a destreza.
E das dúvidas enfim a clareza.

E em seu pensamento restou a certeza.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Doação e agradecimento

Da mesma forma que este texto é uma doação, ele é um agradecimento àquela pessoa especial que fez com a ideia aqui exposta tomasse forma: obrigado por ajudar a construir esta estória.

A estória

"Sem perceber era feito de energia. Como tudo no mundo, sua existência poderia ser resumida em uma só palavra: era energia pura. Irrestrita, infinita, intensa. O fato de existir na forma humana o dotava de um dom: poderia ser capaz de direcionar sua energia, poderia canalizar toda sua plenitude em busca de algo maior. Agora, para fazer isso bastava perceber. Perceber que era intenso e que sua energia deveria ser usada para o bem. Amadurecer e perceber que não para o seu bem, e sim para o nosso bem."

A beleza

De tantas coisas belas que existem, a mais bela é a energia presente em tudo. A energia que permite que este texto seja lido em algum equipamento eletrônico, a energia criada pelo meu corpo que faz com que meus dedos pressionem as teclas certas, a energia de um por do sol, a energia de uma música, a energia de um sentimento.

Nós, humanos conscientemente inconscientes, não fugimos da regra geral da criação: somos energia pura.

O belo é que podemos canalizar nossas energias conforme nossas intenções.

Não vou falar das inúmeras energias que podem ser canalizadas (animais que lutam por sobrevivência, instinto natural ou ainda a energia da natureza que cria... energia), mas sim da ideia de energia enquanto propósito.

Faça uma experiência: vá até um shopping em um final de semana, até um parque em um dia de sol ou até o trem lotado na hora do rush. Observe as pessoas ao seu redor. Tente identificar quais são seus propósitos de vida, e se estas pessoas estão canalizando suas energias na busca de seus sonhos.

Algumas pessoas vivem com sua energia apagada, outras pessoas vivem através da energia de outras e um número muito pequeno de pessoas consegue canalizar sua energia em algum propósito realmente válido.

E na falta de conhecimento que temos desta nossa energia interna que mora a beleza.

A sabedoria

O processo de construção é uma característica inerente a nossa condição humana.

Utilizando nosso pensamento crítico somos capazes de perceber onde estamos focando nossa energia. Podemos perceber o que concentra nossa energia, o que diminui, o que aumenta, o que a move.

Através desta percepção é que somos capazes de identificar quais são nossos pontos fortes e nossos pontos fracos. Uma vez conhecidos estes pontos, o que nos impede de utilizar nossos pontos fortes na evolução e melhora dos nossos pontos fracos?



A beleza de nossa essência humana permite que nós, seres humanos, sejamos capazes de mudar a nossa percepção, a nossa ação. Permite que aprendamos a viver novamente a partir das nossas experiências. Permite que os dias de hoje sejam melhores dos que os de ontem, e não tão bons quanto os dias que virão.

Permite que ganhemos conhecimento, utilizando-o para construir mais conhecimento.

É nesse processo de construção e iluminação constante que reside nosso propósito humano: doação.

É através da nossa doação que somos capazes de mudar o mundo a nossa volta.

A proposta

Doação.

Doe. Não doe apenas roupas, alimentos ou dinheiro. Doe seu tempo e sua energia.

Nosso propósito é viver em constante doação. É aprender e compartilhar o conhecimento. É ser iluminado e ajudar a iluminar àqueles que vivem na escuridão. É ser uma pessoa e ter a energia de vários:

 
Doe-se e faça alguém feliz. Esta pessoa fará outra feliz. O outro fará outro, e a corrente não acaba:


segunda-feira, 25 de julho de 2011

A fórmula do amor

Explicitamente é a primeira vez que falo sobre o tema. Na verdade nada que será escrito aqui é novidade, pois muito já foi escrito/dito/cantado/experimentado, de maneira que este texto pode ser meio lugar-comum (não sou e tampouco pretendo ser um Camões).

Na verdade muito sobre amor já foi dito por aqui, nas diferentes maneiras de expressão do mesmo (o amor familiar, o amor próprio, o amor de um casal...).

Agora, o que ainda não foi dito aqui (diretamente) é que há uma fórmula para o amor:

1 + 1 = 1


A atração

O primeiro "1".

A atração é o primeiro passo para a construção do amor.
Seres emocionalmente irracionais que somos, sentimos um apelo quase que instintivo de nosso corpo: "o que me atrai nesta pessoa?".

Tentamos um processo de construção racional, analisando critérios objetivos: é a cor de seus olhos, o perfume que usa, os gostos em comum. Tudo em vão.

A atração é um processo cognitivo que faz com que, de alguma forma, venhamos a enxergar no outro um pouco de nós mesmos. Vaidosamente narcisistas, somos atraídos por aspectos comportamentais que estão presentes em nós mesmos.

O constante diálogo que mantenho internamente faz com que eu procure nos outros a resposta para mim mesmo. É procurando aquilo que eu mesmo tenho a oferecer (e que na maior parte das vezes não percebemos) que passo a sentir atração por outra pessoa.


A intimidade

O segundo "1".

Uma vez atraídos, passamos por período de provação do sentimento.

Começamos a experimentar novos ângulos e novas sensações para validar que aquele sentimento é mesmo o que estamos procurando.

Assim como um leitor que compra um livro pela capa, é durante o processo de leitura que realmente vamos conhecer a história.

A intimidade, como já falado aqui, é uma construção que permite com que nós passemos a adotar uma nova visão: a compreensão de que somos atraídos por nós mesmos.

Enquanto na atração o processo funciona de forma irracional, é durante o segundo passo (intimacy = into-me-i-see) que temos as respostas para os nossos questionamentos, pois passamos a conhecer a nós mesmos através do outro. É um processo de evolução mútua.

Buscando aproveitar ao máximo a construção de algo maior (e por vezes inexplicável), praticamos o desapego de nosso próprio eu, permitindo que os momentos sejam aproveitados em sua plenitude: eu passo a conhecer a mim mesmo sem qualquer barreira.


A conexão

O terceiro e mais significativo dos "1".

Quando os dois parceiros tem consciência de a experiência em si nada mais é do que um processo de construção (descobrimento), há a conexão natural: é mais fácil construir algo com a ajuda de alguém.

Aqueles que eram dois seres individualmente ignorantes passam a compartilhar um único momento: pensam as mesmas coisas e tem as mesmas vontades.

E qual a motivação disto?

Amor.

Amor por algo/alguém que faz com que nosso ser interior trabalhe para aproveitar ao máximo aquela oportunidade: o amor é nosso combustível. É a admiração que temos pelo outro.

É o equilíbrio necessário entre a nossa intenção e a nossa ação. É a polarização de nossas energias. É a orientação de nossos sonhos.


É quando os dois estão conectados, em si e no outro, que a fórmula do amor prova sua existência:
1 (eu) + 1 (o outro) = 1 (nós)

Amor é fusão. É um processo de construção de algo muito maior e mais importante que um medo pessoal.

É o segredo que faz com que o brilho de um olhar fale mais do que mil palavras.




sexta-feira, 24 de junho de 2011

Atração

É uma coisa assim, meio que sem explicação. E ao mesmo tempo uma coisa assim, meio querendo explicação.

Do mesmo jeito que ela tenta entender seu olhar, ele tenta entender o seu pensar. No meio disso a única coisa que importa: muita química.

A química que faz com que os últimos momentos que tiveram juntos seja assim, completamente intensos. Bons.

O dia é aquela coisa assim, meio frio, meio chuvoso. A ocasião é meio assim, pode ser uma janta especial, pode ser um encontro em um bar.

Sabem que os beijos que trocaram os conectaram, os abraços foram ainda mais importantes, mas a química foi meio assim, essencial.

Não sabem como foram ficar juntos naquele dia.

Ao fundo tocava "You got the silver", dos Stones.

O quarto grande tinha luzes indiretas. A temperatura era fria e o clima era meio assim, tenso.

A cada slide da guitarra, o corpo dele puxava o dela, com uma vontade descomunal. A cada puxada dele, ela ia descobrindo mais dela mesma.

Ela foi se soltando aos poucos, conforme o olhar dele ia explorando. Cada movimento trazia mais liberdade. Cada movimento trazia mais vontade. Cada movimento trazia mais um universo de outros movimentos, prontos para serem explorados.

Cada movimento a deixava mais mulher, mais linda, sensual, protegida. Cada momento o deixava mais homem, mais forte, mais certo, provedor, acolhedor.

Meio clichê, mas a química entre eles foi fazendo que ele fosse se descobrindo nela, e ela se descobrindo nele. Não havia mais aquela coisa de eu sou eu e você é você. Ele acabava sendo ela e ela acabou sendo ele, até os dois virarem um só.


Um só olhar.

Um só cheiro.

Um só sentimento.

Foi ali, deitados um colado no outro que perceberam que não havia mais frio, não havia mais tensão, não havia mais inverno.

Tampouco havia verão, calor, luz ou escuridão. 

Só havia eles

Ou melhor, havia só uma explicação.

domingo, 22 de maio de 2011

Auto afirmação

Está aí um tema que eu já deveria ter abordado. Digo "deveria" pois há argumentos, exemplos, ou seja, material suficiente!

A relação

Tive um final de semana repleto de ocasiões que demonstravam a necessidade de autoafirmação de cidadãos. Cidadãos, quando digo, interessa-me englobar todas as classes sociais. Seja o rico, pobre, preto ou branco, todos tem a sua necessidade de autoafirmação. Importante salientar que a autoafirmação é um processo de segurança que envolve diversas faculdades do comportamento humano. Falar um dialeto, vestir uma roupa específica, adquirir um bem, relacionar-se por interesse. Exemplos mil, personalidades zero. Não é necessário ir muito longe para deparar-se com alguém da tribo dos sem-personalidade, dos inseguros de si, dos minha-máscara-é-minha-vida.

Mas até que ponto a autoafirmação pode elevar a autoestima de uma pessoa? É notório que os valores diferem de pessoa para pessoa, porém o limite é ponto de equilíbrio. Ouso profetizar que a diferença entre a necessidade de autoafirmação e a auto estima encontra-se simplesmente no equilíbrio entre as duas.

Estamos em pleno século XXI, mais precisamente no ano de 2011 e, cada vez mais, espanta-me a necessidade que as pessoas tem de passar uma imagem meramente falsa, uma imagem finita e de curto prazo. O problema disso aos outros? Nada, não fosse para mim, um tremendo encasquetado e admirador do comportamento alheio.

A Origem

Será que a essência do ser humano não é mais importante que sua própria conduta em eventos sociais? Será que o conforto de uma vestimenta não traduz, com mais naturalidade, uma boa adaptação a um ambiente propício para tal? Será que a inversão de valores, ao extremo, não nos torna vazios e mais preocupados com os outros que conosco?

Tive uma adolescência onde a autoafirmação não era tão evidente em sala de aula. Frequentei lugares, em minha juventude, onde o mais importante era a confraternização com amigos do que a admiração dos mesmos.

Hoje, ao passo que crianças/jovens perdem sua identidade, herdam de seus pais um comportamento artificial que faz jus a simplesmente “nada”.

Das atitudes pífias, jovens que valorizam uma mera embalagem representarão uma classe sem valor, mais preocupada com o ponto de vista de seus algozes. Mantendo mundos paralelos, homens e mulheres sem conteúdo constituirão famílias sem valores morais onde um simples gesto de amor será confundido com troca de favores.

Muitas vezes me pergunto se meu lado radical não se sobrepõe a uma simples tendência natural, nada nociva ao desenvolvimento humano. Mas não! Frequento locais onde me espanta a dualidade de cidadãos comuns.

A limonada

A autoafirmação está a venda, compra-se em qualquer esquina. Muito mais fácil, é negociavelmente parcelada em suaves prestações.

Iscas para presas fáceis, presas sem personalidade, personalidades nada genuínas. Palavra desconhecida pelos amantes da vitrine.

Isso pode soar um desabafo, uma bobagem, ou apenas uma constatação.

Para mim, nada mais que um relato da extinta raça de pessoas com personalidade forte e sem vergonha da exposição. Para você, quem sabe, uma bobagem, uma declaração de alguém quadrado que nada entende das tendências do mundo moderno

Para um grupo de pessoas, algo que passa desapercebido, afinal elas estão mais preocupadas em traduzir seus sentimentos em frases online, sonhando ganhar a tão sonhada popularidade.

E tu, te sentes realizado sendo o que "tu" realmente és?

domingo, 17 de abril de 2011

Milagre nos Andes

O que te motiva? Qual é seu sonho? O que tu és capaz de fazer para realizá-lo? Por que tu quer isso tanto?


Essas são algumas perguntas que me faço frequentemente, por que algumas pessoas simplesmente são tão determinadas e dedicadas em conseguir alcançar seu objetivo, custe o que custar?

Li um livro acho que há um meio ano atrás e desde então queria escrever sobre ele. O livro conta a história, verídica, de um sobrevivente de um acidente aéreo envolvendo jogadores de rúgbi de um time da capital uruguaia que estavam indo para Santiago, no Chile. O nome do livro é: Milagre nos Andes de Nando Parrado.


A história é bem conhecida, o filme Vivos é sobre eles.

Só que esse livro é escrito por um dos sobreviventes, e não um simples sobrevivente, é um dos sobreviventes que arriscou a própria vida pra salvar a sua própria e a de todos os outros sobreviventes.

O que ele fez foi o seguinte: após sessenta dias sobrevivendo no frio, tendo perdido a mãe e a irmã no acidente, sabendo através de um rádio que as buscas por sobreviventes teria acabado e comendo carne humana (sim, das pessoas que morreram no acidente) para sobreviver, o autor decidiu sair atrás de ajuda.

Sem roupas nem equipamentos adequados ele caminhou na neve e escalou uma montanha de cinco mil metros de altura, isso tudo sob as piores condições possíveis. Ele caminhou por dez dias até encontrar ajuda para resgatar seus amigos.

Mas qual foi a razão de ele ter tido essa atitude?

Segundo ele era dizer para o seu pai que a irmã dele não morreu sozinha. Nando sabia que seu pai estaria arrasado com a perda das pessoas mais amadas e quis, mais do que tudo falar isso para seu velho.

Em uma das partes mais marcantes do livro o autor conta que estava escalando uma parede de gelo, e sentindo o penhasco o puxando para a morte, a única coisa que ele pensava era contar para seu pai que a sua filha não tinha morrido sozinha.

E quando suas pernas não obedeciam mais e estavam mais obedecendo ele disse que que entrou numa espécie de transe e a única coisa que pensava era o próximo passo. Isso durante dez dias ele só pensou no próximo passo, beirando a inanição e a hipotermia.

Mas por que dentro todos os sobreviventes foi Nando que teve essa iniciativa? Ele que conta que o que o influenciou foram as histórias contadas por seu pai na época que era remador em montevidéo. Seu velho esteve envolvido em uma competição ferrenha e quando a disputa estava no final, sentindo seus músculos rasgarem pela exaustão ele decidiu seguir remando ignorando a dor, o que o levou à vitória.

Vários não suportaram o sofrimento e se entregaram para a morte, mas Nando não, ele quis mais do que tudo sobreviver.

Vale a pena a leitura e a pergunta: o que você seria capaz de fazer (ou deixar de fazer) para alacançar seu sonho?

Pago bem pelo relato.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Estória ao acaso

Se somos criteriosos em nossas escolhas, nossa vida não o é com relação ao acaso.

Essa é uma daquelas estórias mais do que batidas que pode acabar como qualquer outra estória: feliz ou triste, rápida ou devagar, com ou sem medo. Ao acaso.

Imagine que um dia qualquer duas pessoas completamente diferentes, e, ao mesmo tempo, completamente iguais, cruzam um o caminho do outro. O ambiente segue um padrão, mas o que os conecta é outro, completamente diferente.

O mais legal é que muito embora algumas coisas tenham acontecido, o acaso (sem critério algum) manda: não importa o que tenha acontecido, coisas melhores podem acontecer.

De tanto tentar entender a incompreensível tríade (mundo-vida-pessoas) e de tanto sermos covardemente criteriosos com algumas escolhas (inconscientes), o incompreensível acaso faz com que não foi programado, programado esteja.

Sabe o que significa casualidade?

O acaso me mostrou que é a habilidade pouco explorada que permite com que nós, seres emocionalmente idiotas, estejam propensos ao... acaso.

Agora vem a parte mais legal: a vida por um rápido acaso.
Naturalmente (ou forçosamente) hábeis para abrir suas vidas àqueles momentos pouco convencionais, foram expostos um ao outro. Opostamente expostos (homem x mulher), deixaram a coisa acontecer, e foi com a coisa acontecendo que descobriram que o melhor disso tudo é descobrir o novo. De novo. Descobriram um ao outro e, mais do que tudo, descobriram a si mesmos. Deixaram com que o acaso os colocasse frente a frente algumas vezes. O acaso fez com que horários coincidissem, experiências conectassem e até olhares (que mais pareciam aqueles fabulosos improvisos dos músicos de jazz) falassem mais do que qualquer conversa que tiveram. O acaso criou tudo bom que aconteceu.

A vida por um rápido acaso marcou: ensinou. Ou melhor, mostrou.

Mostrou quem era quem. Mostrou para ele quem ele realmente era e para ela quem ela realmente era. Entende o que essência significa? O acaso entende.

Feito pelo acaso e, por este motivo, deixado ao acaso.

E o acaso diz: de tudo o melhor é saber que há alguém especial no mundo, com quem as conversas podem fazer mais a diferença do que qualquer outra experiência.

É ou não é fantástico?

É preciso coragem para deixar algumas escolhas ao acaso.
 
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