terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Um discurso de motivação

Algumas ideias e tópicos são recorrentes por aqui.

Um dos pontos mais abordados segue a linha dos ideais ideais, que procura fazer com que o ser humano viva para construir o bem para outros seres. Enfim, um trabalho pela humanidade...

Há algumas ideias/lições que podem fazer com que nós, as pessoas responsáveis por mudar o mundo, tenhamos inspiração, e estas lições podem ser aprendidas através da fantástica obra de Victor Hugo: Les Miserables.

Logo o nome deste texto poderia ser: "O que aprendi com Les Miserables?" ou "A miséria que ensina a viver"...

1. Sonhar

Triste é aquele que não sonha. 

O sonho de Victor Hugo, inspirado na insurreição republicana parisiense de 1832, ensina que aqueles que sonham e que acreditam devem trabalhar para realizar seus sonhos.

Miseravelmente vivendo oprimidos por uma monarquia exploradora, os personagens de Victor Hugo recorrem incontáveis vezes ao único recurso que lhes é facultado: sonhar.

Falta de condições sociais, escassez de dinheiro, disparidade das escalas sociais e injustiça fazem com que os personagens da peça vivam com base em seus sonhos, que, por sua vez,  geram alternativas que garantem a sua realização.

Cansados da situação, os miseráveis sonham uma sociedade melhor, e acabam por dedicar suas vidas para lutar como construtores sociais, pegando em armas pelos seus ideais:
  

Você pode ver várias pessoas. O que eu vejo é apenas uma só.

Pense bem: sonhar é de graça. Não é preciso comprar sonhos em supermercados ou pagar impostos cada vez que sonhamos.

Podemos sonhar sempre que quisermos, vivendo a vida que desejamos e experimentando as sensações que experimentaríamos caso nossos sonhos fossem reais.

Sonhar é um motivador, dando um norte a uma mente inquieta por mudança e que anseia por transformação e evolução. Sonhar é combustível, é motivação, gás, força de vontade, é objetivo. Sonhar é bom (simples assim).

Quem sonha consegue desligar problemas, visualizar um futuro melhor, ter esperança, construir e, o mais importante de tudo, ter chance. Ter chance de trabalhar e atingir o sonho. Ter chance de ver coisas boas em todas as coisas, de saber aonde se quer chegar, de trabalhar para realizar um sonho, de lutar por um ideal...

Hoje podemos sonhar e lutar sem pegar em armas (mesmo lutando contra elas), e desta forma mudarmos o ambiente ao nosso redor. Sonhar te move e te faz lutar por algo outrora impossível, sem que qualquer coisa te abale... assim como a população que derrubou um ditador no Egito.

Confirmando que sonhar não é utopia, a peça Les Miserables é tão evoluída que até mesmo uma de suas músicas fez com que o sonho de uma pessoa fosse realizado, o que ilustrará o ponto 3, a seguir.

Sonhar é, acima de tudo, viver.

2. Dualidade

Equilíbrio.

A felicidade e a tristeza são indissociáveis. Bom e ruim também. Positivo e negativo. Preto e branco. Ying e yang. Felicidade trazendo sofrimento...

O personagem principal da peça é um homem que se compromete a fazer o bem após ter feito o mal. A expressão perfeita de que as duas energias convivem no mesmo espaço (no personagem) e que a dualidade é universal.

Jean Valjean é um homem que foi preso por ter furtado pão para alimentar sua família (o motivo é nobre, mas a atitude ainda é criminosa). Após ser libertado, Jean furta algumas peças de prata de um bispo que o ajuda, fugindo logo após. Capturado, Jean é salvo pelo mesmo bispo, que convence os guardas de que Jean não o furtou e que as peças eram um presente (outra lição ímpar).

O bispo diz para Jean que as peças devem ajudar Jean a se tornar um homem honesto. Jean furta mais uma vez, mas arrepende-se e resolve mudar sua postura.

O ladrão Jean dá lugar ao caridoso Jean, que arrisca sua vida para salvar outras pessoas, vira um empresário preocupado em gerar e manter empregos, se entrega às autoridades para salvar um inocente e tem misericórdia com aquele que quer matá-lo (Javert).

A antítese presente em Jean Valjean também está presente em Javert, o policial que passa sua vida tentando capturar Jean e sentenciá-lo à morte:
  
 Sujo e limpo. Austero e flexivel. Certo e errado.

Sucintamente: Javert quer apenas aplicar a lei, e passa a vida a procurar Jean. Ironicamente, o misericordioso Jean liberta Javert, que se tornou um prisioneiro de guerra. Jean tem a chance de matar Javert, livrando-se assim daquele que o persegue, e o liberta. Javert fica confuso, eis que conhecia apenas o lado frio da lei e passa a conhecer o lado quente do ser humano, tendo um final trágico.

A linha entre o certo e o errado é tênue e está presente universalmente. Se beber um cálice de vinho por dia é saudável, beber duas garrafas não o é.

A dualidade é um aviso latente que o homem deve buscar equilíbrio em suas atitudes. Deve ter consciência de que nada possui apenas um lado, e que suas atitudes, quando desmedidas, podem destruir ao invés de construir.

Um lembrete de que a busca por harmonia é o eterno trabalho de um homem.

3. Tarde?

O que é o tempo?

Aqueles que sonham e sabem que a dualidade está presente em tudo também sabem que tempo é efêmero.

O homem criminoso e errado dá lugar ao homem caridoso e correto, após algum tempo.

A transformação de Jean nos mostra que nunca é tarde para tentarmos e que as mudanças podem ocorrer da noite para o dia. Nunca é tarde para realizarmos sonhos:


Mais de sessenta milhões de pessoas reconhecem que esta pessoa viveu seu sonho.

O caso da Susan Boyle (que cantou uma das canções do musical em  um programa de talentos) é um exemplo clássico de que nunca é tarde. Susan entrou no palco e foi ridicularizada pelo seu estilo, pela sua trajetória, seus sonhos e sua escolha musical.  Bastou começar a cantar para que quem a ridicularizou pedisse desculpas, reconhecendo o talento de Susan.

Além da transformação de Jean Valjean, a temática política da obra de Victor Hugo pode ser comprovada hoje: a batalha de 1832 foi perdida, mas o ideal sobreviveu e hoje a França já não mais é uma monarquia.

Iniciar um novo projeto, mudar um velho hábito, trocar de profissão. Passar mais tempo com filhos e amigos. Fazer trabalho social. Fazer exercícios físicos. Virar um atleta de ponta. Pedir desculpas. Cada pessoa tem um tempo diferente, mas nunca é tarde demais para fazermos tudo isso, desde que tenhamos consciência de que o tempo é efêmero.

E se (por algum motivo) as coisas não derem certo, poderemos começar novamente.

4. Responsabilidade

Existem 24601 motivos para se aprender com Les Miserables, e o mais nobre de todos eles é o conceito apresentado por Jean Valjean.

A história de Jean (sua prisão e sua 'absolvição' pelo bispo) ensina que o ser humano deve ser responsável pelos seus atos.

Jean firma um compromisso moral consigo mesmo: irá seguir o conselho do bispo e tornar-se um homem honesto. Esse é seu sonho.

Como sonho, Jean trabalha buscando a sua realização. Não pretendo narrar os feitos de Jean, mas posso fazer um resumo de suas atitudes: fazer o que deve ser feito, de maneira correta, assumindo compromissos e responsabilidades.

Nunca é tarde para recomeçar, nem que isso implique a mudança radical do ruim para o bom. Honra, moral e bons costumes não devem ser coadjuvantes na vida de uma pessoa, e sim sua base. Jean origininariamente buscou o caminho do bem, mas perseguiu o bem comentendo o mal: quis evitar a fome de sua família através de um furto.

Mesmo buscando o caminho do bem, o ser humano está sujeito ao cometimento de falhas. O diferencial é que o ser humano deve ser responsável pelas suas falhas.

Ainda que estivesse buscando fugir de uma falha que cometera, Jean não abriu mão do compromisso que havia firmado, e fez o correto tornando-se um homem respeitável e modelo para os demais homens: salvou Cosette (que virou sua 'filha'), salvou o homem que o perseguia, gerou emprego e renda para os que necessitavam e protegeu/salvou aquele que viria a casar com Cosette.

O que torna a responsabilidade de Jean uma responsabilidade ímpar é o fato de que ele assumiu a responsabilidade pelos seus atos e também por aqueles que dele dependiam:

Responsabilidade é assumir a responsabilidade.

Responsabilidade é ser responsável. Responsável pelas próprias atitudes, pelo bem estar do próximo, pelas responsabilidades assumidas. Responsabilidade é saber que há algo que deve ser feito, e, independentemente das falhas que existirem, é esse algo que deve ser perseguido.

Comprometimento.

5. Amor

O maior aprendizado.

Victor Hugo usa toda a temática de Les Miserables para mostrar uma coisa simples, nada simples (mais uma vez o dualismo está presente): amor verdadeiro.

Amor verdadeiro no sentido mais abrangente possível: o amor paixão, amor por um ideal, amor fraternal, amor ao próximo, amor próprio.

Cada personagem ilustra uma forma de amar distinta, fazendo com que todos os personagens busquem o amor como um sonho, dedicando suas vidas à persecução do ideal.

Amor e sonhos estão intimamente relacionados. É amor que move o ser humano à persecução de seus sonhos, enquanto é o sonho que faz com que o ser humano ame. É a dualidade se expressando:

Amores verdadeiramente distintos. 

Victor Hugo explora o amor de pessoas que morreram para agradar àqueles que amaram (a linda dedicação de Éponine), pessoas que morreram pela causa (a triste morte do garoto Gavroche, atingido enquanto voluntariamente recolhia munição em frente à barricada, e a morte de Enjolras, atingido ao mostrar a bandeira que defendia), pessoas que morreram para sustentar crianças abandonadas (Fantine, que resolveu prostituir-se para sustentar Cosette) e pessoas que acreditavam na letra fria da lei (o amor que Javert sentia pela profissão).

Aprendemos que amor é simples e é complicado. Que amor é a expressão do dualismo. Amor é sonho. Amor é comprometimento. Amor é eterno.

Aprendemos que o amor verdadeiro é aquilo que faz com que nossa vida valha a pena.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O cheio mais vazio

É possível o cheio ser vazio?

Logicamente, aquilo que não está vazio está cheio. É uma relação lógica em que algo pode apenas ter duas variáveis, completamente antagônicas: ou cheio ou vazio.

Em algum momento isso já foi mencionado por aqui, mas estamos vivendo em um ambiente paradoxal.

Vivemos uma época em que o cheio pode ser vazio.

O passado

Faça um experimento. Tente viver algum período como nossos antepassados.

Busque ouvir as músicas que eles ouviam, ler o que eles liam, comer o que eles comiam. Busque viver como eles viviam, e, especialmente, busque buscar o que eles buscavam.

Comece desconstruindo seu presente. Imagine como era o mundo sem internet e sem celular. Deixe os bens materiais e concentre-se nas pessoas.

Imagine a vida que teus pais tiveram. Partindo dos teus pais passe aos teus avós, e imagine viver a vida que eles viveram.

Procure analisar tudo sem o menor apego às coisas presentes. Imagine as roupas, as comidas, a estrutura social e os sentimentos.

Estude ideias de uma geração passada. Estude o que o passado representava para aqueles que o viveram. Sinta os sentimentos que nossos antepassados sentiam.

Vá longe, sem amarras.

Regrida aos mais remotos tempos, onde não haviam carros, o mundo era baseado em crenças que hoje já foram superadas e ousar significava conseguir matar um animal para alimentar sua família inteira.

Se a experiência foi bem sucedida, chegarás a conclusão que amor movia o mundo (vou escrever sobre isso in a few days).

Por amar a pátria algumas guerras foram travadas. Por amar uma ideologia milhares de paradigmas foram quebrados. Por amar uma moral algumas famílias foram mobilizadas.

Tirando o cotidiano inerente ao viver, as pessoas corriam atrás de alguma coisa. Liberdade. Igualdade. Fraternidade.

Homens e mulheres tinham sonhos, ideais e propósitos, e viviam suas vidas em um constante processo de busca pela realização.

O presente, sem presente

Depois de conhecer o passado, permita-se experimentar o presente.

Vá até um lugar onde as coisas acontecem. Onde homens e mulheres transitem, 'vivendo as suas vidas'. Sente-se em um lugar mais afastado, e permita-se observar os outros (como um Big Brother com algum propósito).

Observe o que move as pessoas. Explore o ambiente. Busque enxergar o que as pessoas enxergam, ouvir o que as pessoas ouvem e sentir o que elas sentem. Pratique sua empatia.

Aprenda a ser aquele que você está observando.

Repita esta experiência em diferentes lugares. Em diferentes dias. Em diferentes momentos.

Agora deixe de observar as pessoas e passe a observar suas produções. Veja o que as pessoas estão fazendo. Leia o que elas escrevem, escute o que elas dizem e sinta o ambiente que elas estão criando.

Afaste-se um pouco mais e tente observar os grupos formados por algumas pessoas. Não terás nenhuma surpresa.

 Quem conhece o Underground londrino sabe. Milhares de pessoas concentradas em uma única coisa: sua individualidade.

O presente, em um presente

Nosso presente é o paradoxo.

Vivemos um momento em que pessoas pensam estar evoluídas. Vivemos um presente em que o mundo pensa estar livre das mazelas que assolavam nossos antepassados.

Vivemos um presente em que as pessoas buscam um ideal: 'quero ser algo na vida'.

O paradoxo reside em um coletivo que busca um ideal que não é ideal.

A experiência de analisar o presente nos presenteia com a conclusão de que vivemos um momento em que o cheio está vazio.

O coletivo está cheio de ideias, cheio de vontades e cheio de... vazio.

Vivemos um mundo de aparência, onde o físico é evoluído em detrimento do espiritual. Corpos cheios de uma coisa qualquer que não aquilo que realmente importa: um ideal.

Por ideal leia ideal ideal. O coletivo possui um ideal, que está longe de ser ideal.

É um ideal individual, um ideal que não conhece coletivo, que não conhece sociedade, que não conhece o próximo.

Vivemos um momento cheio de expectativas vazias, onde a sociedade pode ser considerada enlatada, um produto ao melhor estilo Aldous Huxley: não se sabe o que é família, subterfúgios são utilizados para mascarar insegurança e as pessoas são divididas por castas.

 Qualquer semelhança com um rebanho não é mera coincidência... 

Em resumo, é o paradoxo de um coletivo que se diz evoluído. Estamos cheios e vazios.


O futuro

Futuro é o resultado das nossas atitudes passadas.

Nossos antepassados criaram o seu futuro, lutando pelos seus ideais (ideais ideais).

Qual é o futuro que o presente está criando?

Estamos caminhando rumo a uma evolução ou estamos retrocedendo enquanto seres humanos?

Estamos presenteando o futuro com pacotes lindos. Embalagens fantásticas. Conteúdo inexistente.

Um mundo paradoxal, hipócrita, que arrogantemente brada ser evoluído, quando sequer tem conhecimento do que é necessário para fazer alguém feliz.

Um mundo muito bonito por fora, sem qualquer beleza interior. Um futuro que pode ser encontrado em uma prateleira de supermercado ou exposto no menu de algum restaurante fast-food.

Um futuro fútil, mambembe, putrefato, natimorto, involuído.

A proposta



Caminhe para frente.

Aprenda com o passado. Crie ideais ideais. Seja a evolução que você deseja ser.

Aprenda a aprender e procure dar-se conta da realidade. A realidade real.

Como alguém já disse: "Há uma realidade mas você não a conhece. Quando compreendê-la, verá que você não é nada, e sendo nada você é tudo. Isso é tudo." 

Vamos aprender que somos crus, e conscientes de nossa total ausência de compreensão, buscar a educação. Buscar a evolução. Buscar a construção social (um ideal ideal).

Vamos encher nossos vazios, tornando-nos seres cheios cheios, completos.

Para isso proponho: faça alguém sorrir verdadeiramente, todos os dias de sua vida. 

Pago bem pela verdadeira felicidade alheia.
 
Copyright 2010 pago bem!